APRESENTAÇÃO

 

O Fórum Sobre Medicalização da Educação e da Sociedade e a Universidade Federal da Bahia partilham algumas das tantas conexões coletivamente construídas no V Seminário Internacional A Educação Medicalizada: “existirmos, a que será que se destina?”, realizado entre os dias 08 e 11 de agosto de 2018, em Salvador-BA.

Desde o IV Seminário, aprofundamos o entendimento de que medicalização envolve um tipo de racionalidade determinista que desconsidera a complexidade da vida humana, reduzindo-a a questões de cunho individual, seja em seu aspecto orgânico, seja em seu aspecto psíquico, seja em uma leitura restrita e naturalizada dos aspectos sociais. Nessa concepção, características comportamentais são tomadas apenas a partir da perspectiva do indivíduo isolado, que passaria a ser o único responsável por sua inadaptação às normas e padrões sociais dominantes. A medicalização é terreno fértil para os fenômenos da patologização, da psiquiatrização, da psicologização e da criminalização das diferenças e da pobreza.

No Brasil, a necessidade de criar articulações sobre o tema resultou na organização do I Seminário Internacional A Educação Medicalizada, em 2010, ao longo do qual foi fundado o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade. Desde então, diversas foram as ações do Fórum, dentre as quais a realização do Seminário Internacional, agora em sua quinta edição.

Em tempos de intensificação de uma agenda necropolítica, que impõe um estado mínimo em direitos e máximo em precarização, vulnerabilidades e repressão, voltada, geralmente, a grupos específicos, o V Seminário Internacional Educação Medicalizada: “existirmos, a que será que se destina?” objetivou discutir o fenômeno da medicalização da existência, à luz dos atravessamentos de gênero, raça, classe, território, deficiência/capacidade e geração, tendo em vista a maneira como incide nas diferentes esferas do cotidiano.

A perspectiva interseccional, iniciada pelo feminismo negro, mostrou-se fundamental na análise da vida medicalizada, por possibilitar considerarmos as diversas dimensões que intercruzam a constituição dos sujeitos. Sendo nossa sociedade atravessada por várias formas de violência instituída, cabe nomeá-las no intuito de visibilizar o que acontece quando os marcadores de opressão (raça, classe, gênero, orientação sexual, deficiência, território e geração) são cruzados no tecido da vida social de indivíduos e grupos. Nesse processo, também buscamos pensar formas de resistência potencializadas por movimentos sociais que tensionam as várias naturalizações de suas condições, desmedicalizando a vida. Além disso, seguimos atentos às relações estabelecidas entre ciência e ideologia, sendo o fenômeno “medicalização da existência” expressão de uma lógica a serviço da captura de subjetividades; bem como à dimensão dos Direitos Humanos, em que pesem os inúmeros obstáculos (im)postos à ação política no contexto atual.

Como alimento dessas discussões, o V Seminário foi construído a partir de uma programação densa, distribuída em quatro dias de trabalho, buscando contemplar a diversidade de áreas interessadas no tema. Além das mesas-redondas nacionais e internacionais, cujas falas serão publicadas em forma de livro, o evento foi essencialmente construído pelas pessoas participantes, muitas das quais submeteram seus trabalhos à Comissão Científica, tanto na forma de Resumo como de Trabalho Completo, nas modalidades: pesquisa científica, relato de experiência ou expressão artística.

Foram aprovados para apresentação no V Seminário 189 trabalhos, inscritos em dois eixos centrais: I. Medicalização, Ciência, Ideologia e Interseccionalidade e II. Medicalização, Política e Movimentos Sociais: interfaces e interseccionalidades. A fim de garantir a maior troca entre as pessoas participantes, a distribuição dos trabalhos buscou ampliar a diversidade, tanto do ponto de vista da área do trabalho, quanto dos temas e instituições de origem. Os trabalhos foram distribuídos em 17 Grupos de Trabalho, que funcionaram em forma de Rodas de Conversa. Além das apresentações, cabia ao GT produzir uma síntese do que girou na Roda, a ser apresentada na Plenária Final. 

Do total de trabalhos aprovados e apresentados, 128 foram enviados no formato final para compor os Anais, sendo 66 Trabalhos Completos e 62 Resumos. Esse é o material que compõe a essência desses Anais. 

Além disso, os Anais são compostos por produções escritas pela Comissão Organizadora do V Seminário. São dois cordéis, o Cordel de Abertura e o Cordel de Encerramento, os quais foram lidos no contexto do evento. Também publicamos, em forma de boletim, a síntese da Reunião A produção de sofrimento psíquico na Universidade. Por fim, após análise detalhada do V Seminário como um todo (mesas-redondas, minicursos, rodas de conversa, atos na rua e plenária), lançamos nosso Manifesto desmedicalizante e interseccional: “existirmos, a que será que se destina?”, no qual sintetizamos as discussões realizadas no evento, perspectivando horizontes implicados com movimentos que entendem e buscam viver a teoria como prática da liberdade comprometida com a emancipação coletiva.

Estamos certos que as 865 páginas desses Anais trarão uma enorme contribuição para pesquisas e intervenções no campo da desmedicalização da vida. Boa leitura!

Publicado: 2019-07-25

Da Comissão Organizadora do V Seminário Internacional A Educação Medicalizada: "

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